quarta-feira, 11 de junho de 2014

Organismo, Humanidade e TDAH


Descubro este artigo, escrito em final de 2005 - início de 2006 - publicado em alguns sites sobre Fonoaudiologia e Psicopedagogia. Transcrevo-o aqui e deixo os links de onde o publicaram:   http://www.profala.com/arthiper6.htm 


Organismo, Humanidade e TDAH
Autora: Maria Angélica Bernardes Santos
-"Buscan en el cerebro la causa del jet lag" (Clarín, Bs.As., 15/07/05): "Parlamento europeu vota a favor dos ensaios clínicos em crianças " (O publico. Lisboa. Mayo de 2005.
-"Una nueva droga contra la hiperactividad en adultos" (Clarín. Bs.As. 23/01/03) .
-"Rebeldía teen pode estar no cérebro" (O estado de S. Paulo 09/09/05)… "dos 12 aos 14 anos, eles teriam mais dificuldade de aceitar padrões comportamentais… Parece que isso acontece em função do desenvolvimento do cérebro… É de fato um fenômeno de base biológica…".
-"Quieren crear una píldora para borrar los recuerdos dolorosos" (Clarín. Bs.As. 20/10/04). El artículo señala "Se la podría ingerir tras una situación traumática para poder evitar el sufrimiento… se puso a prueba en la mayoría de los ensayos una droga (...) que bloquea la acción de las hormonas del stress que graban recuerdos en el cerebro".
-"Militares usam nova droga contra o sono" (Folha de S. Paulo. 08/08/04)... A Revista Newsweek (EEUU. 16/05/05) publicou que "em um estudo finalizado en Fevereiro de 2005 o Centro de Estudos da Infancia da New York University deu-se conta que " 15% dos pais norteamericanos com crianças entre 5 e 18 anos estão ministrando a seus filhos, diariamente, medicação psicoativa".
Esses dados, entre outros foram recolhidos por Jorge Gonçalves Cruz, psicanalista argentino e divulgados em um curso à distância, do qual participei, sobre TDAH.
Copiei somente as manchetes para nos ajudar a fazer uma análise do que vem acontecendo nos últimos tempos com os conceitos de Atenção e Hiperatividade interferindo nas ações escolares e familiares.
Pensam as pessoas que fazem e divulgam estas pesquisas e, também, quem receita os medicamentos sem uma pesquisa profunda, que somos somente organismo e que tudo se resolveria com medicação? Filmes de ficção, que mostram gente robotizada e controlada em todas as suas ações, sem possibilidade de manifestarem pensamentos e sentimentos próprios serão passíveis de se tornarem realidade? O que podemos fazer para evitar essa possibilidade e manter nossa humanidade construída tão lentamente ao longo das civilizações? O que já estamos fazendo?
Já não está provado e comprovado que, diferentemente dos demais animais, o que nos torna humanos não é o organismo, mas a nossa capacidade de recordar, de elaborar sentimentos e de ensinar o que aprendemos? Que não se nasce humano, mas aprende-se a ser humano? Querem nos transformar em organismos puros (impedidos de elaborar lutos, ficarmos tristes - e, conseqüentemente, alegres - de sofrer e, também encontrar a paz, o amor, a cura em nós mesmos), fáceis de sermos controlados através de medicações?
Por que impedir a dor psíquica se ela fortalece o espírito e nos faz aprender/crescer, justamente porque nos percebemos capazes de superá-la?
Há alguns anos, a criança ser arteira, levada, ATIVA, era considerado sinal de saúde, inteligência. Eram características consideradas positivas. Apesar de essas crianças darem trabalho aos pais e professores, criava-se a expectativa de virem a ser alguém capacitada a vencer obstáculos, de se sobressaírem no mundo dos adultos. Se vivessem, hoje, Einstein, Da Vinci, Santos Dumont seriam indicados a usarem medicação para serem menos rebeldes e por " dificuldade de aceitar padrões comportamentais" ?
O que mudou? Foi o mundo, o espaço para se brincar ou foram as crianças? Por que o que antes era permitido e esperado, hoje é reprimido e medicado? Por que querem evitar a rebeldia, a capacidade de se concentrar em atividades que chamam a atenção mais do que nas que estão impostas?
Querem evitar os questionamentos? Com que objetivo? Para não serem questionados?
Penso que nossas crianças "com TDAH", na sua maioria, não carecem de medicação. Carecem de espaço para brincar. [2] De que se dê atenção a elas.
Hoje, os pais e mães com a jornada de trabalho que têm, carecem de tempo, ânimo e prazer em brincar com as crianças.O que mudou foram as crianças ou o modo de vida de hoje? Quando foi que se começou a perder o prazer de brincar?
Já vi famílias que estabeleceram horários para brincar como obrigação para que os filhos se desenvolvessem porque ouviram na TV que é importante brincar para ficarem inteligentes. Vemos que há uma supervalorização do desenvolvimento da inteligência que os quintais já não existem, que as moradias são minúsculas, que as crianças que ainda podem brincar na rua com os amigos não ficam hiperativas.
Na verdade, fico pensando que as crianças e jovens "com déficit de atenção e hiperatividade" estão é fazendo denúncias do que está mudando para pior nas relações entre nós, seres humanos. Estamos perdendo o que há de melhor na humanidade: a convivência uns com os outros e o prazer de estar juntos.
Maria Angélica Bernardes Santos - Psicopedagoga em Belo Horizonte, Minas Gerais.