quarta-feira, 21 de março de 2007

Prêmio Paulo Freire, PBH - 4º lugar

Despertando o Desejo de Registro da História de Cada Um e
Escrevendo Um Futuro Diferente

Relato de trabalho desenvolvido com turmas de Educação de Jovens e Adultos na Escola Municipal “Padre Henrique Brandão”


Professora-autora: Maria Angélica Bernardes Santos


Síntese:

O presente relato apresenta os passos de um trabalho desenvolvido com alunos de Educação de Jovens e Adultos na Escola Padre Henrique Brandão.
São alunos cuja idade varia de 14 a 70 anos distribuídos em seis turmas desde a alfabetização inicial - adultos que nunca frequentaram escola - até turmas avançadas que retornaram após terem abandonado a escola em outros tempos , alguns já tendo cursado a quarta série do ensino fundamental.
Foi um projeto pensado e desenvolvido a partir da dificuldade percebida para os alunos se expressarem por escrito. Essa dificuldade os levava a temer e evitar aulas onde devessem se colocar como sujeitos de sua aprendizagem. Só se sentiam seguros quando copiavam do quadro, ou dos textos de outros, o conhecimento pronto que um terceiro lhes oferecia.
A proposta do projeto para os alunos foi de um espaço de oficina ( que não pôde ser chamado de oficina devido à resistência dos alunos a esse tipo de trabalho) onde se vivenciaria técnicas de dinâmicas de grupo com o objetivo de facilitar a produção escrita pessoal. Para a professora havia, ainda, os objetivos de mostrar novas possibilidades de inclusão dos adultos nas escolas, oferecer um espaço onde a produção permitisse a cada aluno, encontrar algo novo dele que não era reconhecido antes da produção; descobrir e mostrar-lhes o quanto pensam mesmo sem dar-se conta disso, reconhecendo-se autor; reforçar a escola como lugar onde se possa ir, fazer seus relatos, incluir-se em grupos de pares e encontrar modos de transformar sua realidade.
Vencidas as resistências iniciais e com o desenvolvimento dos trabalhos, os objetivos foram alcançados. Além disso, os textos foram utilizados para se pensar em eixos temáticos na construção escrita do Projeto Pedagógico para o noturno da escola.
O produto desse trabalho foi compilado em um livro( em anexo) xerocado e distribuído a todos os alunos de EJA da escola.


Justificativa
A Escola Municipal “Padre Henrique Brandão” localiza-se à rua Crispim Jacques, no bairro Vista Alegre. Atende, no noturno, a alunos do próprio bairro, da Cabana e dos bairros adjacentes: Madre Gertrudes, Nova Cintra, Betânia e Industrial. Na EJA, são alunos oriundos, em sua maioria, de cidades interioranas. Há alguns alunos vindos do Nordeste e do norte brasileiro e/ou que já moraram em outras capitais. Outra grande diferença entre os alunos é a faixa etária.
Convivem, nas mesmas turmas, jovens adolescentes, adultos e idosos.
Essa diversidade, pela gama de saberes diferenciados que os alunos trazem, é positiva. Entretanto cria uma grande dificuldade em relação a divergências entre grupos por “ponto de tráfico de drogas” que têm a pretenção de impedir a frequência de alunos das demais regiões, assim como o trânsito deles entre os bairros.
Contraditóriamente, a escola se vê transformada em um refúgio de convivência para os alunos, principalmente na EJA.
As turmas que participaram do trabalho que se descreve são quatro, compostas por alunos das regiões citadas e sua faixa etária varia de 16 a 70 anos. A maioria é de trabalhadores, alguns já aposentados, outros desempregados e/ou afastados do trabalho por motivo de saúde. Uma grande parte deles veio do meio rural.
Há diversos interesses em seu retorno à escola, mas o que é mais comum a todos é a busca do espaço de convivência. É unânime a fala de que na escola se encontram companheiros, amigos e professores com quem podem falar. O poder falar é fundamental, mesmo que somente entre pares, pois é outro direito cerceado na região.
O projeto foi proposto pela professora que relata, tendo o endosso das demais regentes da EJA que permitem o agrupamento de turmas, quando conveniente. É uma proposta que contempla a resolução 001, de 05/06/2003 que regulamenta a EJA no Sistema de Ensino de Belo Horizonte, sendo coerente com os eixos norteadores da Escola Plural. Em nossa escola, essas leis são a base para as discussões de construção do Projeto Político Pedagógico para EJA, em andamento.
Pensou-se em propiciar um espaço onde cada um pudesse olhar-se a si mesmo escolhendo algo de sua história para relatar, construindo-se um passado através da produção escrita de textos.
Segundo Alicia Fernández, “ construir-se um passado”[1] é importante para se pensar em um projeto de futuro e para se aprender pois sem um sujeito ativo que se historie, signifique seu mundo significando-se nele não há aprendizagem mas memória como a das máquinas, isto é, tentativa de cópia. E escrever a partir das lembranças, mesmo que não se saiba com certeza como aconteceu, traz conteúdos inconscientes que são elaborados na escrita. É inscrever-se na escrita. Conecta-nos com a necessidade de perder algo “velho” e apropriar de algo novo e tem a ver, principalmente, com a possibilidade de utilizar o velho para construir o novo, assim como como o aprender. Quando se escreve a história, se recupera o passado e ao recuperá-lo se cria algo novo. É importante que o autor se reconheça fazendo esse relato para se apropriar da história e da autoria. Aprender tem a ver com isso – situar-se de outra maneira em relação ao passado, reconhecendo a mudança e responsabilizando-se.
Escrever é escolher. No falar, esse escolher fica mais escondido, menos consciente, mas ao escrever, a escolha se torna visível.
Buscamos uma produção que permitisse a cada aluno, encontrar algo novo dele que não era reconhecido antes.



Objetivos

O objetivo inicial foi dar continuidade ao trabalho realizado, anteriormente, onde os alunos trouxeram a cultura de seus grupos de origem e fizeram uma grande exposição de reálias, ilustrações, relatos e apresentações. Percebendo, durante a realização desse trabalho, como era difícil aos alunos o registro de suas memórias, foi pensado um espaço de oficinas onde a escrita fosse subjetiva e instrumento de registro de suas histórias de vida, sentimentos, angústias e alegrias: registro do pensamento. Por isso, pedimos um compromisso com a verdade que não implicava escrever exatamente como aconteceu.
Tentamos descobrir e mostrar-lhes o quanto pensam mesmo sem dar-se conta disso, reconhecendo-se autor; reforçar a escola como lugar onde se possa ir, fazer seus relatos, incluir-se em grupos de pares e encontrar modos de transformar sua realidade. Enfim, oferecer espaço de aprendizagem. O pressuposto é o de que “as pessoas se educam nas ações que realizam e nas obras que produzem, por meio de relações sociais vivenciadas, refletidas em suas consciências, ou seja, as pessoas põem em movimento um outro elemento pedagógico fundamental que é o convívio entre as pessoas e, nesse movimento, constróem as suas identidades, num processo interativo”( ( Costa-2003)[2].
O objetivo de trabalhar as competências de escrita existiu, mas nesse momento ficou em segundo plano em favor da liberação do desejo de escrever, inscrevendo-se no e através do texto. “ Só assim a alfabetização faz sentido”, diz Paulo Freire. “ É a consequência de uma reflexão que o homem começa a fazer sobre sua própria capacidade de refletir. Sobre sua posição no mundo. Sobre o mundo mesmo. Sobre seu trabalho. Sobre seu poder de transformar o mundo. Sobre o encontro das consciências. (...) alfabetização, que deixa assim de ser algo externo ao homem para ser dele mesmo. Para sair de dentro de si, em relação com o mundo, como uma criação”(Freire).[3]
O outro objetivo, expresso para os alunos, foi de construir com uma seleção dos relatos, a partir do consentimento dos autores, um livro-lembrança a ser distribuido entre todos da turma.


Metodologia e Procedimentos

O detonador escolhido foi a leitura de um livro recém lançado em produção independente por Nair Mourão Amaral, “ Meu Baú”. A autora é idosa, fez o lançamento do livro em sua festa de 80 anos de idade, iniciou sua escrita aos 75 anos e só frequentou a escola até o segundo ano do primário, tendo saído para trabalhar e ajudar financeiramente à família. Esse fato torna a autora do livro bem próxima da maioria dos alunos pois têm uma trajetória de vida muito similar.
“Aqui, é importante esclarecer, que o trabalho realizado e agora descrito, se fundamenta”, também, “na perspectiva de que é necessário propor aos alunos , principalmente, os da EJA, o cultivo da memória dos setores populares, de que fazem parte”. Isso “ajuda na formação das consciências históricas, sejam as individuais, sejam as coletivas, pois a História, como prática social, se faz projetando o futuro a partir das experiências sociais vivenciadas, ao longo do tempo/espaço do passado, cultivadas no tempo presente, no aqui e agora” ( Costa-2003).
A escolha desse livro se deu, também por outro motivo. Ele contém erros ortográficos, de acentuação e construção gramatical que não prejudicam a narrativa. Esse fato foi ressignificado junto aos alunos no sentido de ser possível escrever antes do domínio da escrita formal. Assim poderiam se liberar do medo de escrever errado que os levava a evitar a escrita espontânea para não se mostrarem errando. É comum nas turmas o pedido da escrita só passada no quadro para cópias por imaginarem que assim estarão aprendendo o correto sem passar pela angústia de se mostrarem sem esse conhecimento.
Outro valor do livro citado é a forma como a autora descreve seu sentimento em relação à sua produção. Ela valoriza muito o registro da memória de vida para deixar como legado aos filhos, netos, bisnetos e aos amigos.
O livro foi lido, em capítulos, para os alunos, pela professora, após o relato do seu lançamento e de alguns fatos a respeito da autora. Abrindo discussão após a primeira leitura, foi proposto o projeto de escrita a partir das oficinas, que facilitassem o encontro com as lembranças de cada um, preparando a escrita. Com a concordância da maioria, ficou acordado que a professora escolheria uma técnica de grupo a partir de temas por ela escolhidos com base em algumas pesquisas de interesses já realizadas com os alunos. Também já ficou combinado a realização do livro com os produtos do trabalho.
Iniciamos os trabalhos. Os alunos ficaram livres para entregarem ou não sua escrita à professora, por causa de um questionamento de um dos alunos: _ E se eu não quiser escrever? Foi respondido que poderia não escrever mas que eu gostaria muito se todos participassem e por isso eu propunha que escrevesse para ele mesmo. Só entregaria quem quisesse. A maioria entregou.
Os alunos tinham a tranquilidade dada pela professora não só em relação à liberdade de entregar ou não, mas, também, pelo saber seguinte: a professora leria as produções para conhecer as histórias.
Percebemos todas essas questões acontecendo durante a escrita e, depois, na discussão sobre os relatos.
Foi colocado aos alunos que importava a qualidade estética das produções, a beleza da expressão e a clareza do discurso, pensando-se nos leitores de seus textos: eu, as demais professoras, colegas, família de cada um e eles próprios mais tarde. Que as questões de gramática, formatação e ortografia seriam trabalhadas, a partir dos próprios textos produzidos, para melhorar a comunicação e o registro o mais próximo possível da norma culta da língua.
Os erros não receberiam juízo de valor e os próprios alunos poderiam corrigi-los no Espaço do Computador.[4]
Ao digitar os textos, um diálogo era estabelecido com as marcações de erros do Word, a(o) autora(autor) e a professora ou colega coordenadores. Foi comum , ainda, durante a digitação, o estranhamento, pelos próprios autores, de construções textuais que haviam produzido, sendo possível acrescentar e/ou substituir termos para melhorar o texto.
Com os textos digitados e impressos em primeira versão foi solicitado, aos alunos, sua leitura para eventuais correções e que pensassem um título para o livro.
Ao aluno Duarte, que criava figuras humanas no quadro de giz antes da chegada da professora, foi sugerido a ilustração da capa pensando nos colegas das turmas. Apesar de terem sido trabalhos isolados — a ilustração e a escolha do título — houve uma coerência muito grande entre eles, talvez pela própria dinâmica de funcionamento que se instalou no grupo.
Na preparação desse projeto foram utilizados referenciais teóricos apropriados na Oficina de Capacitação de Professores de EJA - Dinâmica de Grupo – Laboratório Grupo do Departamento de Psicologia da UFMG, com a coordenação da professora Maria Lúcia Miranda Afonso; no livro Oficina em Dinâmica de Grupo: um método de intervenção psicossocial, da mesma autora; em Winnicot, O Brincar e a Realidade; no texto O Professor Como Leitor do Texto do Aluno, de João Wanderley Geraldi [5] ; em Paulo Freire e sua Pedagogia da Libertação e, também, nos referenciais psicopedagógicos que embasam a prática da autora.



Avaliação:

O produto digitado, dos trabalhos, foi apresentado ao professor José Raimundo Lisbôa da Costa que orienta a construção coletiva do Projeto Político Pedagógico para EJA em nossa escola. Percebeu-se ser um material rico e complementar para se conhecer as especificidades de nossos alunos, valorizar e aproveitar suas “experiências adquiridas na vida cotidiana”, “atendimento da diversidade etária” e cultural que os caracteriza, atendendo aos fundamentos legais para o trabalho com EJA. Segundo o professor, “além do cultivo da memória e da reflexão sobre sí mesmo e os outros sujeitos, é de fundamental importância, que se abra espaço em sala da aula, para que os educandos expressem as suas consciências históricas, pois entendemos que é necessário oportunizar aos educandos a continuidade de suas identidades sociais.”
Seguindo sua proposta, foi realizada avaliação coletiva dos textos (com o grupo de professoras da EJA) visando apreender eixos temáticos para o trabalho e construção do currículo para essas turmas.
Percebemos que esta prática pedagógica nos permitiu:
1- Escutar os alunos em suas tragetórias de vida, suas necessidades, desejos e interesses;
2- A possibilidade de superar a tendência a adaptar atividades para os alunos adultos, podendo construir com eles as atividades, a partir de demandas deles;
3- Visualizar um caminho para a construção curricular para essas turmas, na construção coletiva - com a participação deles - de projetos de pesquisa que levem à reflexão proposta por Paulo Freire.

Para o próximo ano, pensamos tornar esse trabalho uma parceria com todos os professores; que as aulas de Português voltadas para os conteúdos gramaticais se justifiquem para os alunos na leitura e reescrita dos próprios textos e na “prática do desenvolvimento de sua linguagem — a oral e a escrita. Prática impossível quase de ser vivida plenamente se a ela não se juntam a busca do momento estético da linguagem, a boniteza da expressão, coincidente com a regra gramatical ou não.” ( Freire, Paulo: 1983 )



Bibliografia consultada:

AFONSO, Maria Lúcia(org.). Oficina em Dinâmica de Grupo: um método de
intervenção psicossocial. Belo Horizonte:Edições do Campo Social, 2002.

BASTOS FILHO, Audir e DE SÁ, Cláudia Ferreira . Psicomovimentar . Campinas,
SP: Papirus, 2001. P26-9

FERNÁNDEZ, Alicia . Poner en Juego el Saber – Psicopedagogía:
propiciando autorías de pensamiento.ed Nueva Vision. Buenos Aires: 2000.

FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1980.

GERALDI, João Wanderley, O Professor como Leitor do Texto do Aluno, in:
MARTINS, M. Helena (org.) . Questões De Linguagem, 3 ed. S.P. Contexto,
1993, p 47-53.



Belo Horizonte, 20 de Dezembro de 2003
___________________________
Maria Angélica Bernardes Santos - Bilá Bernardes


[1] Termo tomado de Piera Aulagnier por FERNÁNDEZ, Alicia em seu livro Poner en Juego el Saber – Psicopedagogía: propiciando autorías de pensamiento.ed Nueva Vision. Buenos Aires: 2000.
[2] José Raimundo Lisbôa da Costa, professor da FAE, gentilmente escreveu para nós um comentário sobre o presente trabalho.
[3] FREIRE, Paulo. Revista Nova Escola. Dez 1994.
[4] A escola recebeu a doação de seis computadores que são utilizados pelos alunos no horário semi-presencial e/ou durante as aulas quando professores ou colegas com o conhecimento técnico podem coordenar esse trabalho.
[5] GERALDI, João Wanderley, O Professor como Leitor do Texto do Aluno, in: MARTINS, M. Helena (org.) . Questões De Linguagem, 3 ed. S.P. Contexto, 1993, p 47-53.